CULTURA DE SECREÇÕES E PONTA DE CATETER
- Introdução: O Hospedeiro, a Microbiota e os Dispositivos Invasivos
Os microrganismos habitam amplamente os ambientes inanimados e mantêm uma associação estreita com os seres vivos. No corpo humano, a pele e as mucosas abrigam uma microbiota nativa complexa, que pode ser permanente ou transitória. A composição dessa comunidade microbiana sofre influência direta do sítio anatômico, da fisiologia local, da resposta imune e do estado de morbidade do hospedeiro.
Muitos fungos e bactérias que integram o meio ambiente ou a microbiota comensal comportam-se como patógenos oportunistas, provocando doenças graves em indivíduos severamente comprometidos. Esse cenário é rotineiramente observado em pacientes imunossuprimidos, transplantados ou internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTI), onde há uma quebra drástica nas barreiras naturais de defesa.
Nesse contexto hospitalar, a utilização de dispositivos médicos invasivos, como o Cateter Venoso Central (CVC), desponta como um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de infecções da corrente sanguínea. Os agentes etiológicos mais prevalentes nessas infecções são, precisamente, os microrganismos que compõem a microbiota da pele do próprio paciente, o que torna o rigor técnico no diagnóstico laboratorial um requisito de sobrevivência.
- Cultura de Secreções de Feridas e Abscessos
As infecções de pele e tecidos moles podem variar de abscessos superficiais a infecções necrotizantes profundas. O isolamento do patógeno requer cuidados críticos na fase pré-analítica para evitar o aprisionamento de contaminantes colonizadores da superfície dérmica.
2.1 Coleta de Aspiração de Abscesso (Padrão de Escolha)
Sempre que possível, deve-se priorizar a coleta do exsudato líquido (pus) por meio de aspiração com agulha e seringa estéreis, em detrimento do uso de swabs.
- Procedimento: Realizar a antissepsia rigorosa da pele íntegra ao redor da lesão com álcool a $70%$ seguido de clorexidina alcoólica ou iodopovidona. Introduzir a agulha no abscesso e aspirar o maior volume possível de secreção purulenta. O material na própria seringa (protegida com tampa estéril) ou transferido para um tubo estéreo protege os microrganismos — inclusive anaeróbios — do dessecamento e da toxicidade do oxigênio atmosferico.
2.2 Coleta por Swab de Superfície
Quando a aspiração for inviável e o uso do swab for mandatório, a técnica deve ser minuciosa.
- Procedimento: Limpar a superfície da ferida com solução salina fisiológica estéril e gaze para remover detritos celulares, tecidos necrosados e exsudato superficial colonizado. Friccionar firmemente o swab estéril sobre o tecido de granulação ativo, rotacionando a haste para capturar os microrganismos viáveis presentes no leito profundo da lesão. O swab deve ser imediatamente introduzido em meio de transporte adequado (como o Meio de Amies ou Stuart).
- Cultura de Ponta de Cateter (Método Semi-Quantitativo de Maki)
O diagnóstico de Infecção Relacionada a Cateter (IRC) requer a confirmação de que o dispositivo invasivo colonizou a ponto de disseminar bactérias para o sangue. O método laboratorial padrão-ouro para essa avaliação é a técnica semi-quantitativa de Maki (cultura por rolamento da ponta do cateter).
3.1 Protocolo de Processamento Técnico
- Coleta e Recepção: No leito do paciente, após antissepsia da pele, o cateter é removido assepticamente. Com uma tesoura estéril, corta-se o segmento terminal do dispositivo (aproximadamente os 5 cm finais da ponta), depositando-o em um frasco seco e estéril. O material deve ser enviado imediatamente ao laboratório.
- Rolamento Mecânico: No laboratório, utilizando pinças estéreis dentro da zona de assepsia do bico de Bunsen, a ponta do cateter é retirada do frasco e depositada sobre a superfície de uma placa de ágar sangue de carneiro a 5%.
- Mecânica do Movimento: Rola-se o segmento do cateter para frente e para trás sobre o ágar, exercendo uma leve pressão, de modo que toda a circunferência externa do plástico entre em contato direto com o meio de cultura por pelo menos 4 a 5 vezes.
- Incubação: A placa é incubada em estufa bacteriológica a 35oC -37oC por um período de 18 a 24 horas (podendo ser estendido até 48 horas).
3.2 Interpretação e Critérios de Corte (Maki)
Após a incubação, realiza-se a contagem física das colônias bacterianas crescidas ao longo do trajeto de rolamento do cateter. O resultado é expresso em número de Unidades Formadoras de Colônias (UFC):
- Contagens < 15 UFC: O resultado é considerado clinicamente Negativo. Sugere que a presença bacteriana no dispositivo decorre de uma colonização local discreta ou contaminação marginal no momento da retirada do cateter, sem nexo causal direto com infecção sistêmica.
- Contagens igual ou maior que 15 UFC: O resultado é classificado como Positivo. Indica uma colonização densa e significativa do dispositivo. Se o mesmo microrganismo (com idêntico perfil de antibiograma) for isolado simultaneamente nas amostras de hemocultura periférica do paciente, confirma-se o diagnóstico definitivo de Infecção da Corrente Sanguínea Relacionada a Cateter.
- Governança da Fase Pré-Analítica: Rejeição e Aceitabilidade
A garantia da qualidade em microbiologia diagnóstica exige o estabelecimento de barreiras rígidas contra amostras inadequadas. Resultados baseados em espécimes mal coletados induzem a erros terapêuticos graves e desperdício de insumos.
4.1 Critérios de Aceitabilidade da Amostra
Para ser integrada à rotina de análise, a amostra biológica deve preencher os seguintes requisitos:
- Amostras identificadas de forma legível e inequívoca no corpo do frasco (nunca na tampa), contendo os dados do paciente e correlacionadas perfeitamente com o pedido médico.
- Amostras coletadas e acondicionadas nos recipientes e meios de transporte estipulados pelos manuais técnicos do laboratório.
- Amostras recentemente coletadas e enviadas dentro do prazo de viabilidade celular.
4.2 Critérios Estritos de Rejeição de Amostras
O laboratório deve recusar sumariamente o processamento dos seguintes materiais:
- Erros Críticos de Identificação: Falta de identificação na etiqueta, etiquetas ilegíveis ou discrepância absoluta entre o nome impresso no frasco e o nome constante na guia médica.
- Ausência de Dados Clínicos: Amostras sem especificação do teste a ser realizado ou sem a indicação exata do sítio anatômico de origem (ex: swab rotulado apenas como "secreção", sem indicar se provém de ferida cirúrgica abdominal ou úlcera de membro inferior).
- Recipientes Inadequados: Amostras de secreções secas enviadas em swabs sem meio de transporte, ou vazando devido a frascos rachados ou tampas mal rosqueadas (risco biológico severo de contaminação cruzada e infecção ocupacional).
- Amostras de 24 Horas: Materiais biológicos (como secreções ou escarro) acumulados pelo paciente ao longo de 24 horas. Esses espécimes sofrem sobrecrescimento maciço de microrganismos saprófitas menos exigentes, mascarando por completo os verdadeiros patógenos.
- Atraso no Transporte: Amostras enviadas ao laboratório após longas horas de retardo. Mesmo os meios de transporte químicos em gel (como Amies e Stuart) mantêm a integridade e viabilidade das células bacterianas por um período restrito de 6 a 8 horas sem refrigeração. Após esse prazo, os patógenos sensíveis sofrem lise espontânea.
- Material Conservado Inadequadamente: Amostras biológicas enviadas imersas em soluções fixadoras como formalina ou formol. O formaldeído promove a desnaturação proteica e a morte celular imediata, inviabilizando qualquer ensaio de cultivo biológico.
- Ponta de Cateter de Foley: O cateter de Foley (sonda vesical de demora) passa de forma prolongada pela uretra e meato urinário, áreas densamente colonizadas por bactérias intestinais. Portanto, o cultivo de sua ponta apresentará invariavelmente crescimento polimicrobiano sem qualquer valor clínico, sendo uma conduta médica contraindicada.
- Ponta de Cateter em Solução Líquida: Envio de ponta de CVC imerso em solução salina ou em meios de transporte líquidos. A presença do líquido lava os microrganismos aderidos à superfície do plástico e dispersa as células no fluido, inviabilizando por completo a aplicação da técnica de rolamento semi-quantitativa de Maki.
- Materiais de Colostomia e Debridamento Inespecífico: Amostras colhidas diretamente de bolsas de colostomia ou fragmentos de tecidos necrosados superficiais sem a devida limpeza prévia.
- Duplicidade: Mais de uma amostra biológica colhida do mesmo sítio anatômico no mesmo dia para o mesmo paciente. A única exceção aceitável a essa regra são os conjuntos independentes de hemocultura.
- Política de Comunicação de Resultados Críticos
Quando os critérios de rejeição forem ativados na triagem laboratorial, o profissional não deve descartar a amostra sem antes estabelecer contato direto com o médico assistente ou com a equipe de enfermagem responsável pelo paciente. Esse contato visa esclarecer discrepâncias ou solicitar, de forma justificada, uma nova coleta dentro dos padrões de conformidade.
Da mesma forma, o isolamento de patógenos multirresistentes em pontas de CVC ou secreções profundas de pacientes cirúrgicos constitui um resultado crítico de urgência. O laboratório deve notificar imediatamente o achado à Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) e à equipe médica, registrando documentalmente no sistema ou em livro de atas a data, o horário exato da ligação, o nome do técnico emissor e a identidade do profissional receptor na unidade de saúde.
2.Procedimento Operacional Padrão: Cultura de Secreções Purulentas e Ponta de Cateter
2.1. Objetivo. Padronizar a coleta, processamento e interpretação de secreções purulentas e segmentos de cateteres intravenosos, visando a detecção precisa de patógenos e o suporte ao controle de infecções hospitalares.
2.2. Responsabilidade. Equipe técnica do laboratório de microbiologia e profissionais de saúde responsáveis pela coleta.
2.3. Critérios de Aceitabilidade e Rejeição
- Aceitação: Amostras identificadas de forma inequívoca, coletadas nos recipientes corretos (ex: frasco estéril para aspirado, swab em meio de transporte), enviadas dentro do prazo de 6 a 8 horas (sem refrigeração).
- Rejeição: Swabs secos, amostras em formalina, pontas de cateter imersas em líquidos (salina/meio de transporte), sondas de Foley, amostras coletadas há mais de 24 horas ou com erros críticos de identificação.
2.4. Procedimento de Processamento
- Cultura de Secreções (Abscessos/Feridas):
- Prioridade: Aspirado (seringa/tubo estéril) > Swab de superfície.
- Semeadura: Inocular o material em meios de cultura sólidos ricos (ex: Ágar Sangue, Ágar Chocolate) e seletivos (ex: MacConkey).
- Condições: Incubar a 35°C-37°C por 18-48 horas. Se houver suspeita de anaeróbios, proceder conforme normas específicas de anaerobiose.
- Cultura de Ponta de Cateter (Técnica de Maki):
- Preparação: Cortar 5 cm da ponta distal do cateter assepticamente e colocar em frasco seco estéril.
- Rolamento: No laboratório, rolar a ponta do cateter sobre uma placa de ágar sangue de carneiro a 5% por 4 a 5 vezes, aplicando leve pressão para assegurar o contato de toda a circunferência do plástico.
- Incubação: Incubar a placa a 35°C-37°C por 18 a 24 horas (extensível a 48h).
2.5. Critérios de Interpretação (Maki)
- Negativo: < 15 UFC (Unidades Formadoras de Colônias) por placa.
- Positivo: ≥15 UFC. Confirmar se o perfil de antibiograma é idêntico ao isolado em hemocultura periférica.
2.6. Biossegurança e Comunicação
- Biossegurança: Manipular toda amostra em Cabine de Segurança Biológica (CSB) para prevenir infecção ocupacional.
- Resultados Críticos: O isolamento de patógenos multirresistentes ou resultados positivos de cateter devem ser comunicados imediatamente à CCIH e à equipe médica, com registro formal de data, horário e nomes dos profissionais envolvidos.
Nota: Este POP deve ser revisado periodicamente conforme as normas da ANVISA e as Boas Práticas Laboratoriais.
3.AUTOMATIZAÇÃO
A automação no processamento de secreções purulentas e pontas de cateter tem se tornado um pilar essencial nos laboratórios de microbiologia clínica no Brasil, visando otimizar o tempo de resposta e elevar a precisão diagnóstica em casos de infecções relacionadas à assistência à saúde. A transição para sistemas automatizados permite superar desafios técnicos importantes, como a necessidade de quantificação rigorosa no caso dos cateteres e a complexidade de isolamento de patógenos em amostras de tecidos profundos, reduzindo a subjetividade inerente às técnicas manuais.
No cenário nacional, laboratórios de referência utilizam tecnologias de ponta para a identificação e realização do teste de sensibilidade aos antimicrobianos (TSA). Sistemas de espectrometria de massas, como o MALDI-TOF MS, têm revolucionado a identificação rápida de patógenos isolados a partir de feridas e pontas de cateter. Complementarmente, plataformas automatizadas para a determinação da Concentração Inibitória Mínima (CIM), tais como o VITEK 2 (bioMérieux) e o sistema Phoenix (BD), são amplamente empregados para padronizar o antibiograma, assegurando resultados em conformidade com as normas do BrCAST/CLSI.
A integração desses equipamentos ao fluxo de trabalho laboratorial não apenas garante a confiabilidade dos resultados — fundamentais para o manejo clínico de infecções graves em pacientes hospitalizados — mas também atende às exigências da ANVISA quanto ao controle de qualidade e à vigilância epidemiológica de microrganismos multirresistentes. Ao automatizar a leitura e a interpretação de perfis de sensibilidade, o laboratório é capaz de fornecer informações rápidas à Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH), permitindo ajustes precoces na terapia antibiótica e auxiliando na redução das taxas de morbidade em ambientes hospitalares.
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
ANVISA. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Manual de microbiologia clínica para o controle de infecção relacionada à assistência à saúde. Módulo 1: Procedimentos laboratoriais. Brasília: ANVISA, 2004. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br. Acesso em: 31 maio 2026.
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Manual de procedimentos básicos em microbiologia clínica para o controle de infecção hospitalar: Módulo I. Brasília: ANVISA/Ministério da Saúde, 2000. 56 p. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_procedimentos_microbiologiaclinica_controle_infechospitalar.pdf. Acesso em: 30 maio 2026.
CARROLL, K. C. et al. Manual of Clinical Microbiology. 12. ed. Washington, DC: ASM Press, 2019. 2 v.
TORTORA, G. J.; FUNKE, B. R.; CASE, C. L. Microbiologia. 12. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
WADSWORTH, J.; FINEGOLD, S. M.; BARON, E. J. Bailey & Scott's Diagnostic Microbiology. 14. ed. St. Louis, MO: Elsevier, 2017.





